Há algum tempo se fala muito, principalmente nos EUA, sobre a filosofia de Excursionismo Ultraleve (Ultralight Backpacking), onde se discute as vantagens de viajar com o mínimo de peso possível. Inicialmente essa filosofia era voltada para trilhas de longa duração, mas com a evolução dos materiais, design e métodos de fabricação de equipamentos e alimentos, hoje ela pode ser aplicada a qualquer viagem de qualquer duração.
A principal pergunta que talvez passe pela cabeça das pessoas é: Porque viajar Ultraleve? A resposta vem do fato de que carregar peso é uma necessidade e não o objetivo da viagem; então fazê-la com o mínimo de peso possível irá torná-la mais agradável como um todo. Seja uma trilha de 1 dia perto de casa ou um mochilão pela Europa, seus ombros, costas e joelhos sofrerão menos quanto menor for o peso que você colocar sobre eles, e mesmo que isso comprometa um pouco de conforto, acabará valendo a pena.
A filosofia de Excursionismo Ultraleve presa por algumas regras, que podem ser sintetizadas nos 9 PASSOS abaixo:
PASSO 1: Liste (ou “Não estou esquecendo nada?”)
Não esqueça de nada importante, mas leve apenas o necessário!
Para evitar ser vitima da tentação ou do esquecimento, faça uma lista com tudo que você precisa levar e classifique cada item como: Indispensável, Importante ou Opcional.
PASSO 2: Avalie (ou “Vale a pena levar tudo isso?”)
Arrume uma balança, pese tudo que você pretende levar e anote o peso individual de cada item na lista que você fez no PASSO 1!
As coisas mais pesadas e as classificadas como Opcional devem será avaliadas com mais critério. Isso deixará claro que enlatados, embora saborosos, podem não ser uma boa idéia.
PASSO 3: Repense (ou “O que eu posso eliminar?”)
Normalmente após o PASSO 2 descobrimos vários excessos e notamos que mesmo as coisas menores fazem diferença.
Por mais que meias sejam leves, você não precisa levar 10 pares! E em viagens em áreas urbanas, parar em uma lavanderia (ou você mesmo lavar algumas peças de roupa) lhe permitirá diminuir bastante a quantidade de roupas. OS itens marcados como Opcional são os primeiros que devemos questionar a necessidade, principalmente se forem pesados, ou em grande quantidade.
PASSO 4: Substitua (ou “Posso substituir por algo mais leve?”)
Há alternativas mais leves para a maioria das coisas que levamos e embora algumas delas sejam consideravelmente mais caras, muitas não são!
No PASSO 2 você deve ter descoberto que os maiores vilões de peso são: mochilas (Indispensável), barracas (Importante), sacos de dormir, fogareiros e panelas (que podem ser Importantes ou Opcionais, dependendo da viagem).
Embora seja comum comprar um saco de dormir que suporte a menor temperatura esperada, devemos pensar na temperatura média e, nos momentos de frio extremo, dormir agasalhado. Isso permite comprar algo mais fino, e portanto mais leve e compacto! Já sobre as barracas, o mercado tem barracas cada vez mais leves e as varetas de fibra de vidro já não são as melhores opções. Pesquise bem antes de comprar!
PASSO 5: Reduza (ou “É desse tamanho que eu preciso?”)
Você pode optar por levar uma panela pequena de alumínio (ou até uma marmita de alumínio) ao invés de uma panela convencional ou deixar sua mochila cargueira de 80 litros e levar uma de 20 litros em uma viagem curta! De um modo geral, quanto menor mais leve!
PASSO 6: Roupas (ou “Que tipo de tempo eu irei enfrentar?”)
Esqueça as várias calças de frio e leve apenas 1 peça correta. A tecnologia está a seu favor!
Num clima frio não há porque levar 3 blusas de lã e 2 calças jeans. Se 1 não esquentar o suficiente provavelmente 2 não o farão melhor! Pense por camadas: 1 camada de baixo, 1 camada de aquecimento e 1 camada de isolamento! Todas as marcas de roupas para trilha hoje em dia adotam essa abordagem por ser extremamente eficiente e o preço está ficando cada vez mais barato.
Quando chuva é algo provável, jaquetas impermeáveis são excelentes e existem opções para todos os bolsos. Minimizar peças de roupa é um modo bastante eficiente de diminuir o peso.
PASSO 7: Cantil (ou “Haverá aguá disponível?”)
Que o ser humano precisa de aproximadamente 2 litros de água por dia todo mundo sabe, mas você não precisa carregar tudo isso o dia todo!
Lembrando que cada litro de água pesa 1 kg, seu cantil pode ser um grande vilão e exceto se você for viajar pelo deserto, opte por um cantil menor e beba água sempre que houver oportunidade.
Se o trajeto for por área selvagem, lembre-se que bicas e nascentes são bastante comuns, mas nem sempre a água é potável. Algumas gotas de água sanitária são o suficiente para torná-la potável, por um custo insignificante!
PASSO 8: Comida (ou “O que eu vou comer?”)
Repense seu cardápio de forma a torná-lo mais leve e versátil. Você chegará a conclusão de que o fogareiro e as panelas podem ser opcionais na maioria das viagens!
Salvo em lugares de clima muito frio, você pode facilmente ficar sem uma refeição quente e optar por frutas secas, nozes e castanhas, barras de cereal, salame e similares, queijos secos e chocolate. Você não precisará cozinhar nada e poderá dispensar o fogareiro, o combustível, e a panela, o que irá diminuir bastante o peso final. Mas não aproveite para levar mais comida: entre 300 e 400 gramas de comida por refeição são suficiente para a maioria das pessoas.
PASSO 9: Confie (ou “Não subestime as coisas pequenas!”)
Não menospreze a economia de peso aparentemente pequenos!
Não pense que deixar de levar coisas leves não influenciará no peso final, pois a idéia é justamente o contrario: reduza o peso a ser levado aos poucos e mesmo nas coisas que parecem não influenciar. No final você verá que essas “poucas pequenas” costumam fazer uma diferença grande quando somadas.
Há vários outros pontos que podem ser considerados para minimizar ainda mais o peso do seu equipamento de viagem, mas adotando os passos mencionados acima é fácil fazer sua mochila pesar menos de 8 kg sem ter que abrir mão de toda a comodidade.
Eu virei adepto da filosofia de Excursionismo Ultraleve após minha viagem pela Estrada Real, em Agosto de 2008, quando carreguei aproximadamente 15 kg de equipamento nas costas por algumas centenas de quilômetros. A experiência foi tão desastrosa que a viagem terminou bem diferente do que fora planejado. Não cometa o mesmo erro, reduza o peso da sua mochila e aproveite!